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Família e Sucessões

Inventário com Dívidas do Falecido: Os Herdeiros Pagam?

Quem paga é a herança, não o herdeiro: veja até onde vai essa responsabilidade e como os credores entram no inventário.

Por Dra. Vaneska Scarppati 12 min de leitura

Quando alguém morre deixando dívidas, surge uma dúvida comum entre as famílias: os herdeiros vão ter que tirar dinheiro do bolso para pagar? A resposta direta é: não. As dívidas do falecido são pagas com os próprios bens deixados por ele — e ninguém herda uma dívida maior do que o valor do que recebe. Este conteúdo explica o que a lei diz, como funciona o inventário com débitos, o que juntar de documentos e como evitar problemas no caminho.

O que a lei diz sobre inventário com dívidas do falecido

A principal regra está no Código Civil: pelo art. 1.997, a herança responde pelas dívidas do falecido, e pelo art. 1.792 o herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança. Isso significa que, se o valor dos bens for menor que o total das dívidas, o prejuízo fica com o credor, não com quem herdou. A mesma lógica vale para qualquer herança recebida com dívidas em aberto.

O Código de Processo Civil dá a mecânica. Nos arts. 642 a 646, o credor do falecido pede a habilitação do crédito dentro do inventário: os herdeiros são ouvidos e, se concordarem, o juiz manda separar dinheiro ou reservar bens para o pagamento. Havendo impugnação, o credor é remetido às vias ordinárias, e o juiz pode reservar bens suficientes até que a discussão termine. O que sobrar depois disso é que se divide entre os herdeiros.

Na prática, isso significa que a preocupação com dívidas não deve impedir a família de abrir o inventário. O processo existe justamente para separar o que é do falecido, pagar o que é possível e entregar aos herdeiros o que restar.

Um ponto importante: o herdeiro que paga uma dívida do falecido com dinheiro próprio pode pedir o reembolso dentro do inventário, desde que comprove o pagamento e que a dívida fosse mesmo do espólio. O valor entra na conta final da partilha. Sem recibo, essa cobrança fica difícil.

Existe ainda um atalho legítimo para certos valores. A Lei 6.858/1980 determina que saldos de FGTS e PIS/PASEP, restituições de imposto de renda e valores não recebidos em vida sejam pagos diretamente aos dependentes habilitados perante a Previdência Social — e, na falta deles, aos sucessores previstos na lei civil —, independentemente de inventário ou arrolamento. O art. 666 do Código de Processo Civil repete expressamente essa dispensa. Na prática, a família pode receber esses valores enquanto o inventário dos demais bens ainda tramita. Quando não há dependente habilitado, o caminho costuma ser o alvará judicial para levantar valores do falecido.

  • Entenda que herdeiros não respondem por dívidas superiores ao valor da herança.
  • Lembre: as dívidas são pagas com os bens, dinheiro e direitos que o falecido deixou.
  • Guarde comprovantes se pagar qualquer conta do falecido por conta própria.
  • Separe os documentos do espólio antes de iniciar o processo.
  • Confira se alguma dívida já está prescrita antes de reconhecer o débito.
  • Procure orientação para evitar decisões precipitadas.

O que é o princípio da responsabilidade limitada

A lei trata o espólio como uma espécie de caixa separado. Os credores do falecido podem cobrar apenas desse caixa. Os herdeiros, com o patrimônio próprio, ficam de fora.

Isso vale para todas as dívidas: financiamentos, cartões, empréstimos, impostos, aluguéis. Nenhum credor pode exigir que um filho ou o cônjuge pague com o salário ou com a casa da família, salvo situações muito específicas — como quando a dívida foi contraída em conjunto ou há fraude.

Quando dá para resolver em cartório e quando precisa de juiz

A lei permite fazer o inventário em cartório, sem processo judicial, quando todos os herdeiros são maiores, capazes e estão de acordo — inclusive sobre a partilha. Isso vale mesmo que existam dívidas, desde que não haja conflito entre os herdeiros.

A autorização para o inventário extrajudicial está na Lei 11.441/2007 e hoje no art. 610, §1º, do Código de Processo Civil: escritura pública quando todos os herdeiros são maiores, capazes e estão de acordo, sempre com advogado. A exigência histórica de inexistência de testamento foi flexibilizada por atos normativos recentes do Conselho Nacional de Justiça, que passaram a admitir a via extrajudicial em hipóteses específicas; como o alcance varia conforme a corregedoria local, confirme antes com o cartório. Se a dúvida é qual porta bater, veja como decidir entre inventário judicial e extrajudicial.

O inventário judicial é obrigatório quando há herdeiro menor ou incapaz, quando alguém discorda da partilha ou das dívidas, ou quando existe testamento que precisa de validação. O juiz analisa as contas e determina o pagamento dos credores na ordem legal.

Na prática, isso significa que a existência de dívidas não trava automaticamente o inventário. O cartório pode resolver se todos estão de acordo. O juiz entra quando a família não chega a um consenso ou quando a lei exige intervenção.

Vale lembrar que, no cartório, o tabelião confere certidões de protesto, de tributos e de distribuição, mas não julga a validade de uma cobrança. Se alguém questiona um débito, ou se um credor não aceita a solução proposta, o caso migra para o Judiciário, onde a habilitação de crédito tem rito próprio. Antes de escolher, vale saber quanto costuma custar um inventário e quem paga as despesas.

  • Converse com os herdeiros e busque um acordo antes de escolher o caminho.
  • Consulte um cartório de notas da Serra ou da região para verificar os requisitos.
  • Se houver menor de idade ou incapaz, prepare-se para o inventário judicial.
  • Leve a relação de dívidas e bens para a primeira conversa com o tabelião.
  • Peça orientação profissional para saber qual via é mais adequada ao seu caso.

Quais documentos reunir antes de abrir o processo

Antes de abrir o inventário, reúna a papelada. Faltar documento é uma das causas mais comuns de atraso. A lista básica inclui certidão de óbito, RG e CPF do falecido e dos herdeiros, comprovante de endereço e os documentos de cada bem (escritura, matrícula, contrato de financiamento).

Também é necessário levantar as dívidas. Isso inclui extratos de bancos, financiamentos, boletos de IPTU, condomínio, empréstimos e cartões. Ter tudo por escrito evita surpresas e ajuda a decidir se o inventário será em cartório ou no juízo.

A Receita Federal exige a Declaração Final de Espólio. Ela deve ser entregue após o trânsito em julgado da partilha ou após a lavratura da escritura pública, informando o número do processo e a vara, se houver. É uma etapa obrigatória para encerrar o CPF do falecido.

Na prática, isso significa que, quanto mais organizada estiver a papelada, mais rápido o inventário anda. O inventariante — a pessoa nomeada para administrar o espólio — tem o dever de prestar contas e apresentar todos os documentos.

Importante: quem não tiver todos os documentos pode iniciar o inventário e apresentar o que falta durante o processo, mas isso costuma gerar demora. Organizar antes é sempre melhor. Veja as orientações no site da Receita Federal sobre a declaração de espólio.

  • Separe a certidão de óbito do falecido.
  • Confira RG e CPF do falecido e de todos os herdeiros.
  • Providencie certidão de casamento ou união estável, se houver cônjuge.
  • Levante escritura, matrícula ou contrato de cada imóvel.
  • Reúna extratos bancários, contratos de financiamento e boletos de dívidas.
  • Junte comprovantes de pagamento de IPTU, condomínio e contas pendentes.

Quanto tempo leva e o que evita prejuízo

Um inventário simples, em cartório, costuma sair em poucos meses, dependendo da agilidade dos herdeiros e da regularidade dos documentos. Já o inventário judicial pode levar mais tempo, principalmente se houver contestação ou dívidas complicadas.

Não há um prazo exato: cada caso é um caso. O que você pode controlar é a sua organização. Quanto antes os documentos forem entregues e as decisões forem tomadas em conjunto, menor a espera.

Um cuidado importante: não pague dívidas do falecido com dinheiro próprio sem pensar. Antes de quitar qualquer coisa, converse com os demais herdeiros e confirme se é realmente necessário. Guarde todos os comprovantes se decidir pagar.

Também vale verificar se a dívida está prescrita, ou seja, se o prazo de cobrança já passou. Os prazos estão no Código Civil: a regra geral é de dez anos (art. 205) e as dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular prescrevem em cinco anos (art. 206, §5º, inciso I). A morte do devedor não reinicia essa contagem. Um cuidado prático: reconhecer o débito ou fazer um pagamento parcial interrompe a prescrição, então confira o vencimento e a última movimentação antes de responder a qualquer cobrança.

Outro cuidado: não assine documentos que comprometam a herança sem entender o conteúdo. Alguns acordos propostos por credores transformam a dívida do falecido em dívida pessoal de quem assina, e aí a proteção do art. 1.792 deixa de valer. Leve a proposta para a advogada analisar antes de concordar; se quiser conhecer a atuação do escritório, veja a área de família e sucessões.

Na prática, isso significa que o maior risco não é a dívida em si, mas a falta de informação. Quem age com calma e documentação em dia tende a evitar prejuízo.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do caso por um(a) advogado(a). Se houver dúvida sobre prazos, dívidas ou o melhor caminho, procure orientação profissional antes de tomar uma decisão definitiva.

  • Abra o inventário o quanto antes para evitar custas e multas por atraso.
  • Não pague dívidas do falecido com recursos próprios sem necessidade.
  • Verifique a prescrição de cada débito antes de acertar qualquer valor.
  • Guarde comprovantes de qualquer pagamento feito em nome do espólio.
  • Desconfie de cobranças feitas de forma informal ou por telefone.
  • Peça ajuda de uma advogada antes de assinar acordo proposto por credores.

Erros comuns relacionados ao tema

ItemO que significa
Achar que o herdeiro é obrigado a pagar as dívidas com o próprio dinheiroMuitas famílias pagam sem necessidade por medo de cobranças. A regra é que a herança responde pelos débitos, não o patrimônio pessoal dos herdeiros.
Atrasar a abertura do inventário por medo das dívidasA demora pode gerar multa e complicações na declaração de espólio. Abrir o processo é a forma de resolver a situação, mesmo quando as dívidas são maiores que os bens.
Pagar dívidas por conta própria sem guardar comprovantesSe o pagamento for feito sem autorização e sem documentação, o herdeiro pode ter dificuldade para pedir reembolso.
Assinar acordo proposto por credores sem entender os efeitosAlguns bancos oferecem descontos para quitar dívidas do falecido, mas é preciso avaliar se o acordo é vantajoso e se não implica assunção pessoal da dívida.
Esquecer de entregar a Declaração Final de EspólioDepois da partilha, o inventariante deve entregar a declaração à Receita Federal. Esquecer pode gerar pendências no CPF do falecido e dos herdeiros.

Base legal

A resposta deste artigo não é opinião: está escrita em poucos artigos do Código Civil e do Código de Processo Civil.

  • Art. 1.792 do Código Civil é a garantia central: o herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança. Se o passivo supera o ativo, o prejuízo é do credor, não de quem herdou.
  • Art. 1.997 completa a regra: a herança responde pelo pagamento das dívidas do falecido; feita a partilha, cada herdeiro responde apenas na proporção do que recebeu.
  • Art. 1.821 assegura aos credores o direito de serem pagos pelos bens da herança, antes que os herdeiros recebam seus quinhões.
  • Arts. 642 a 646 do Código de Processo Civil desenham a habilitação de credores no inventário: o credor pede o pagamento nos autos, os herdeiros são ouvidos e, havendo concordância, o juiz manda separar dinheiro ou reservar bens. Se alguém impugna, o credor é remetido às vias ordinárias, e o juiz pode determinar a reserva de bens suficientes até o desfecho.
  • Art. 666 do Código de Processo Civil dispensa inventário ou arrolamento para o pagamento dos valores previstos na Lei 6.858/1980, que trata de saldos de FGTS e PIS/PASEP, restituições de imposto de renda e valores não recebidos em vida: eles são pagos aos dependentes habilitados na Previdência Social e, na falta deles, aos sucessores previstos na lei civil.
  • Art. 611 do Código de Processo Civil fixa o prazo de dois meses, contados do falecimento, para abrir o inventário; o atraso costuma gerar multa sobre o ITCMD, definida em lei estadual.
  • Art. 610, §1º, com a Lei 11.441/2007, autoriza a via do cartório quando todos os herdeiros são maiores, capazes e concordes, sempre com advogado.
  • Arts. 205 e 206 do Código Civil fixam os prazos de prescrição. A regra geral é de dez anos; dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular prescrevem em cinco anos, pelo art. 206, §5º, inciso I. A morte do devedor não reinicia esses prazos.

Perguntas frequentes

Se a dívida for maior que os bens, preciso pagar a diferença?

Não. A herança responde pelas dívidas até o limite dos bens. Se não houver bens suficientes, o restante fica sem cobrança. Os herdeiros não usam o patrimônio pessoal para quitar débitos do falecido.

Posso abrir o inventário em cartório se houver dívidas?

Sim, se todos os herdeiros forem maiores e capazes e houver acordo sobre a partilha e o pagamento das dívidas. Quando alguém contesta uma cobrança ou há herdeiro menor/incapaz, é necessário o inventário judicial.

Preciso de advogado para fazer inventário?

No inventário extrajudicial, a presença de advogado é obrigatória por lei. No judicial, também é necessária a representação por advogado. O que não exige advogado é, muitas vezes, pedir certidões e levantar documentos.

O que acontece se eu pagar uma dívida do falecido por conta própria?

Você pode pedir o reembolso no inventário, desde que comprove o pagamento. O valor será abatido da sua parte ou pago pelo espólio, conforme a ordem da partilha.

Quanto tempo tenho para abrir o inventário?

O prazo legal para abrir o inventário é de 60 dias, contados da abertura da sucessão. Quem atrasa pode pagar multa sobre os tributos devidos. Mas cada caso é um caso; o ideal é não deixar para depois.

Dívidas prescritas entram no inventário?

Se já passou o prazo de prescrição, o credor perde o direito de cobrar. No inventário, a dívida prescrita não precisa ser paga. Mas é preciso verificar cada tipo de débito, porque os prazos variam.

VS

Dra. Vaneska Scarppati

Sócia-fundadora — Scarppati & Barboza Advocacia

Atuação estratégica em Direito Trabalhista, Previdenciário e Cível, com foco em resultado prático para a pessoa que vive a situação.

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